hares e milhares de anos antes, Brandon, o
Construtor, erguera Winterfell e, segundo alguns
diziam, a Muralha. Bran conhecia a história, mas
nunca fora sua favorita. Talvez um dos outros
Brandons tivesse gostado dela. Por vezes a Ama
falava com ele como se fosse o seu Brandon, o bebê
que amamentara há tantos anos, e por vezes o
confundia com o tio Brandon, que tinha sido morto
pelo Rei Louco antes de Bran nascer. Ela vivera
tanto tempo, dissera-lhe sua mãe uma vez, que todos
os Brandons Stark se tinham transformado numa só
pessoa em sua cabeça.
- Esta não é a minha favorita - Bran respondeu. -
Minhas favoritas são as assustadoras - ouviu uma
agitação qualquer lá fora e voltou a se virar para a
janela. Rickon corria para a guarita, com os lobos
atrás, mas a torre ficava fora de seu campo de visão,
por isso não podia ver o que estava acontecendo, e
socou sua coxa, frustrado, mas não sentiu nada.
- Ah, minha querida criança de verão - disse a Velha
Ama em voz baixa -, que sabe de medo? O medo
pertence ao inverno, meu pequeno senhor, quando as
neves se acumulam até três metros de profundidade e
o vento gelado uiva do norte. O medo pertence à
longa noite, quando o sol esconde o rosto durante
anos e as crianças nascem, vivem e morrem sempre
na escuridão, enquanto os lobos gigantes se tornam
magros e famintos, e os caminhantes brancos se
movem pelos bosques.
- Você está falando dos Outros - Bran falou, como
que se lamentando.
- Os Outros - concordou a Velha Ama. - Há milhares
e milhares de anos, caiu um inverno que era mais
frio, duro e infinito que qualquer outro na memória
do homem. Chegou uma noite que durou uma
geração, e tanto tremeram e morreram os reis em
seus castelos como os criadores de porcos em suas
cabanas. As mulheres preferiram asfixiar os filhos a
vê-los passar fome, e choraram, e sentiram as
lágrimas congelarem em seu rosto - a voz e as
agulhas calaram--se, ela olhou Bran com seus olhos
claros e velados e perguntou: - Então, criança? Este
é o tipo de história de que gosta?
- Bem... - disse Bran com relutância - sim, só que...
A Velha Ama acenou com a cabeça.
- Nessa escuridão, os Outros vieram pela primeira
vez - a velha começou, enquanto as agulhas faziam
clic, clic, clic. - Eram coisas frias, mortas, que odiavam
o ferro, o fogo, o toque do sol e todas as criaturas
com sangue quente nas veias. Arrasaram
fortificações, cidades e reinos, derrubaram heróis e
exércitos às centenas, montando seus pálidos cavalos
mortos e liderando hostes de assassinados. Nem
todas as espadas dos homens juntas logravam deter
seu avanço, e até donzelas e bebês de peito neles não
encontravam piedade. Perseguiam as donzelas
através de florestas congeladas e alimentavam seus
servos mortos com a carne de crianças humanas.
A voz da Ama tinha se tornado muito baixa, quase
um sussurro, e Bran deu por si inclinando-se para a
frente para ouvir.
- Esses foram os tempos antes da chegada dos
ândalos, e muito antes de as mulheres terem fugido
das cidades do Roine através do mar estreito, e os
cem reinos desses tempos eram os reinos dos
Primeiros Homens, que tinham tomado estas terras
dos filhos da floresta. Mas aqui e ali, nos bosques
mais densos, os filhos ainda viviam em suas cidades
de madeira e colinas ocas, e os rostos das árvores
mantinham-se vigilantes. E assim, enquanto o frio e
a morte enchiam a terra, o último herói decidiu
procurar os filhos da floresta, na esperança de que
sua antiga magia pudesse reconquistar aquilo que os
exércitos dos homens tinham perdido. Partiu para as
terras mortas com uma espada, um cavalo, um cão e
uma dúzia de companheiros. Procurou durante anos,
até perder a esperança de chegar algum dia a
encontrar os filhos da floresta em suas cidades
secretas. Um por um os amigos morreram, e também
o cavalo, e por fim até o cão, e sua espada congelou
tanto que a lâmina se quebrou quando tentou usá-la.
E os Outros cheiraram nele o sangue quente e
seguiram-lhe o rastro em silêncio, perseguindo-o com
matilhas de aranhas brancas, grandes como cães de
caça...
De repente a porta se abriu com um bang, e o coração
de Bran saltou-lhe até a boca num medo súbito, mas
era apenas Meistre Luwin, com Hodor parado na
escada atrás dele.
- Hodor! - anunciou o cavalariço, como era seu
costume, com um enorme sorriso para todos.
Meistre Luwin não estava sorrindo.
- Temos visitantes - anunciou -, e sua presença é
solicitada, Bran,
- Mas agora estou ouvindo uma história - o menino
protestou,
- As histórias esperam, meu pequeno senhor, e
quando regressar, elas estarão aqui - disse a Velha
Ama. - Os visitantes não são assim tão pacientes, e
muitas vezes trazem suas próprias histórias.
- Quem é? - Bran perguntou a Meistre Luwin.
- Tyrion Lannister e alguns homens da Patrulha da
Noite, com notícias de seu irmão Jon. Robb os está
recebendo. Hodor, ajude Bran a descer até o salão?
- Hodor! - o moço concordou alegremente e abaixou-
se para passar sua grande cabeça desgrenhada pela
porta, Hodor tinha quase dois metros e quinze. Era
difíc